Sexta-feira, Julho 03, 2009


Pedaços de mim se desprendem e flutuam ao redor de mim em busca de respostas. Sou seu sopro quente enquanto fala, enquanto lança as palavras e espera que elas se choquem ás minhas paredes. Não entendo. Todas as letras agrupadas e soltas, girando e formando novas palavras que compreendo cada vez menos. A garrafa vazia acusa minha embriaguez. Meus sentidos. Você apenas beija lentamente o cigarro de ponta cintilante e devolve ao mundo círculos esfumaçados. Não devia falar. O som da sua voz inabalável apenas quebra as partículas encantadas que compõem esse momento. São só sons bruxuleantes que se perdem sem sentido que me alcance. Estou perdida em algum lugar entre a fumaça e o som que o constante sibilar da letra S produz através de seus lábios lindos. Vejo a língua tocar o dente e dar cambalhotas em sua boca, a língua quente e úmida que me desperta tensão ou desejo. Fecho os olhos para não ouvir, mas sinto os acordes me atingindo feito pingos de chuva fria. Escapo para a dimensão das águas, meus pés nas poças espalhando tudo por onde passo, folhas perdidas correndo pelas sarjetas, carregadas erroneamente pelas águas vorazes. Espero você na esquina, olhando o sinal abrir e fechar, os pneus espalhando chuva e abrindo caminho nas ruas pluviais. A água me invadindo a sandálias vermelhas, meus dedos sentindo a textura úmida, o prazer do dia quente e lindo. A sombrinha vermelha girando sobre minha cabeça. Espera. Meus olhos se abrem mais uma vez e você quase gira. As palavras cortantes pararam e você apenas olha o vazio. Estaciona o carro e sorri enquanto abre a porta. E a água simplesmente é varrida do vidro de maneira linda e rápida. Partimos juntos enfim.

Domingo, Junho 28, 2009

E então o súbito silêncio dentro de mim. Como se de repente o vazio se preenchesse de vozes caladas, e tudo que restasse fosse um breve eco imaginário dos murmúrios ditos no ouvido, encostando de leve os lábios pra causar arrepios.
Era tarde quando morri. O céu mareado por nuvens amarelecidas pelos últimos raios que se atreviam pelo lado de cá. Senti simplesmente minha alma se desprender e pairar sobre meu corpo quieto. Era o espelho meu corpo deitado sob minha sombra invisível. Um espelho um pouco distorcido que exibia meu rosto petrificado numa expressão estranha. Tentei agrupar meus últimos pensamentos antes de deixar meu corpo. Mas foram muitos. E eram pensamentos interrompidos por suspiros de arrependimento.
Senti a leveza e percebi que eu não era nada além de uma partícula pensante, um feixe de luz imaginário, um nada solto como aquelas pequenas partículas que pairam numa faixa de luz solar. E senti falta de meu corpo, quis voltar pra ele.
Mergulhei rapidamente pelo lado direito da minha têmpora buscando o lugar dentro de mim que me acenderia outra vez, que me tornaria novamente um ser de carne, osso, coração. Mas não havia nada. Só escuridão. Nenhum som, nenhuma pequena fração de luz, de calor, de vida. Era só uma pedaço de carne sem vida. Tudo que restava de mim agora era esse fio de pensamento, sem direção e sem conhecimento que o levasse dali.
Decidi permanecer junto ao meu corpo, enquanto ele ali estivesse. Logo alguém o encontraria e por um instante tentei imaginar a reação da pessoas. Não. Eu não gostaria de presenciar a cena da descoberta de meu corpo sem vida. Ou esperar enquanto alguém me despia e limpava e vestia de maneira apropriada para o funeral. E passar todas aquelas horas humilhantes ao lado do meu corpo sendo observado minuciosamente pelos amigos e parentes que chorariam, rezariam, e sairiam dali para continuar com suas próprias vidas dentro de seus corpos cheios de calor e movimento.
Incrível. Realmente eu havia morrido. Estava ali estacionada um pouco acima de meu peito, verificando de perto que eu tinha as sobrancelhas por fazer. Será que alguém se lembraria de ajeitá-las para o velório? Meus cabelos estavam soltos, espalhados pelo piso frio do banheiro. Por que mesmo eu teria deixado que eles chegassem a esse comprimento? Eu usava uma camisola curta de flores pequenas coloridas. Meus óculos de leitura estavam meio tortos, mas continuavam encaixados no meu nariz. Minhas unhas bem feitas e em minha mão um frasco pequeno. Ah sim, as pílulas haviam acabado. As malditas pílulas que me manteriam viva, dentro desse corpo aí, do qual eu já começava a me distanciar.
Sim, não sentia mais que aquele corpo me pertencia ou que aquela figura bizarra e descomposta no chão tinha sido eu algum dia. Seria eu esse mesmo pensamento solto no ar se tivesse habitado um outro corpo? Sentia-me feminina como sempre e não achei provável naquele momento que eu pudesse encarnar um corpo masculino. Ou um cão. Ou uma planta qualquer.
Pensei então nas pessoas que eu amava. Elas me amariam da mesma forma se eu tivesse outra cor de pele, outros cabelos, outro corpo? Teria sido eu tão feliz e tão triste com outra aparência quanto fui com essa estendida bem à minha frente?
E então me ocorreu a inutilidade de minha existência.
Eu era agora um mero pensamento solto no ar, com todo o conhecimento adquirido em minha vida contido nele, nesse nada flutuante. E não consegui distinguir minhas pegadas pelo mundo. Não consegui naquele momento enxergar as marcas que eu deveria ter deixado, boas ações. Mas meus erros eram bem visíveis. Todos eles. Do primeiro ao último. E me senti muito só naquele silêncio. Pensei que se eu pudesse voltar faria tudo diferente. E começaria a mudar minha vida daquele momento em diante.

Segunda-feira, Junho 22, 2009


A manhã cinzenta apenas precede o resto do dia, que virá que virá.

Não estou pra ninguém, quero ficar só, cercar meus lados todos com paredes, cobrir meu teto com pensamentos impenetráveis, ficar comigo só.

Mas as vozes chegam, seguidas pelas pessoas que se movimentam e articulam palavras que não tem o menor sentido para mim. E a minha voz sai arrancada de dentro de mim, e digo coisas que esperam que eu diga.

Tomo o café, enfio meu corpo no vestido um pouco ousado para o dia, saio andando, sem as chaves, sem o carro, apenas minhas pernas, um pé depois o outro. E a garoa fina segue borrifando meu rosto, meus olhos, misturando-se ao salgado amargo de minhas lágrimas sem sentido para o dia de carnaval.

Na memória todas aquelas palavras, nas palavras toda a raiva, o ressentimento, a tristeza, todo o amor do mundo, toda a falta de amor. Em meus olhos todo desencanto, desamparo, toda dor...

Ouço os carros que passam, as palavras lascivas, os gritos dos felizes, dos insensatos, dos bêbados, dos outros viventes; ouço o canto triste do mundo, o ranger das velhas engrenagens, o barulho pequeno do vento roçando de leve minhas orelhas. Ouço o grito dentro de mim, ecoando em minha mente, mente, mente... o grito selvagem, a voz grotesca que aquece o sangue, que o molda à sua imagem, bestial, disforme... Sangue que se mistura às lágrimas e mancha meu olhar, turvando a vida toda que se espalha ao meu redor.

E nesse instante desejo ser criança, voltando da escola, com o meu amigo que seria para sempre e não foi, com meus planos todos prontos para aquele dia inteiro, longo, quase eterno. E queria estar preocupada com o batom que roubei da minha mãe, para usar na escola. E ter na mochila minha barbie penteada, na cintura o moletom e nas mãos minhas sandálias. Ou virar pó, para rolar nas calçadas, estar no vento, nas janelas, nas estradas. Mudar de vez para um país distante, optar por estar só, e ser sozinha pelas ruas, sem bagagem, sem lembranças. Aprender outra vida, outra língua, escrever outra história, diferente, ousada, inspirada em liberdade e romance, existir utopicamente... como os poetas, os loucos, os duendes. Mas não há nenhuma mágica que conceda desejos, há apenas o tempo que nos empurra adiante, que nos acrescenta rugas e tristezas, salpicando nossa vida vez ou outra com momentos de alegria, apenas para dar uma cor, para nos fazer acreditar que há força na palavra esperança, que há verdade na palavra amor, que há luz na palavra paz.

Tudo a minha volta diz que devo seguir, assim como estou, ignorar minha alma inquieta, bárbara, rebelde. Devo calar meu coração, domar suas batidas descomedidas, virar sobre meus próprios pés e fazer o caminho de volta, engolir meu ceticismo, atuar um acredito enorme, formal. E sorrir mesmo com o coração pequenino, apertado num canto qualquer dentro de mim, viver mesmo que tudo seja cinza, mesmo que os pássaros não cantem, que as luzes se apaguem, que o mundo adoeça mais e mais diante dos olhos do Deus louco que o criou.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

A mesa que escolhi era a mais improvável, no canto mais escuro onde quase não havia luz. Imagino que se houvesse alguém suficientemente sóbrio para notar, veria apenas a chama do cigarro e um vulto de um provável bêbado que se instalara lá. O whisky que pedi era ruim e ardia tudo por onde passava, alojando-se em silêncio em minha mente, criando confusões que na hora não pude notar. Mas havia um fato a meu favor, pensava eu, pois de onde estava podia meramente cumprir meu papel ridículo de espiã mal paga, tomar a bebida que escolhi como entorpecente e evitar o assédio dos homens nojentos que freqüentavam o lugar. Tudo parecia perfeito e, segundo meus ébrios cálculos, terminaria bem.
Eu o estava seguindo desde o metrô, quando ele desceu e atravessou toda a estação apressado, esbarrando e empurrando as pessoas, e tomou o ônibus 745 que parou num beco sujo na baixa da Lapa. Nesse instante quase o perdi, pois meus princípios inadequados para a profissão levaram-me hesitar descer naquele fim de mundo escuro e deserto. Pensei rápido nos meus motivos todos e razões, desci pela porta da frente sem pagar a corrida, e corri para trás da esquina enquanto ouvia o motorista dizendo um filha da puta sonoro. Ele estava uns cinqüenta metros adiante e entrou numa fenda imunda que surgiu no meio de uma parede igualmente sórdida. Novamente pensei em desistir, contudo o vento frio me empurrou porta adentro, onde embora escuro, estava mais quente.
Logo que entrei precisei parar um instante para habituar meus olhos à falta de luz e logo que isso aconteceu pude logo ver que ele estava sentado ali bem perto de mim, no balcão ao lado de outros homens, fumando longamente entre um gole e outro de alguma bebida. Atravessei o bar sem olhar para os lados, tentando parecer natural em meu sobretudo de lã italiano e botas Louis Viton, todavia sentindo todos os olhares queimando em mim como projéteis de arma de fogo. Eu caminhava sem saber pra onde ir quando vi a mesa no canto, discreta e obscura.
Eu já estava lá há algumas horas e a bebida que eu insistia em aceitar sempre para não levantar suspeitas começava a alterar meus sentidos. O bar começava a se assemelhar a um sonho que tive, pessoas que falavam e pareciam sorrir em minha direção... ou realmente sorriam? Os copos que se chocavam não faziam ruído algum, o som da guitarra louca encobria tudo, inclusive meus pensamentos que se emaranhavam aos acordes nulos.... nada mais funcionava e eu senti que sorria... (continua algum dia)

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Dificil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama.
Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer
Bob Marley

Quarta-feira, Junho 17, 2009


As janelas todas estavam abertas para o céu. E era nada além do céu. O azul me remetia para dentro, a claridade me empurrava para o escuro, para onde houvesse menos luz, menos dor. Todos os olhos estavam fechados e os meus queriam desesperadamente enxergar. Forçava minha vista e toda aquela luz só fazia me cegar.

Encontrei um espaço por entre pernas e membros de outras pessoas estendidas ao fundo, perto da parede.

Não havia saída. Não sei quanto tempo tudo poderia durar. Ou por quanto tempo todos suportariam a luz, as paredes sem portas, as janelas longe do chão de maneira como se o prédio todo flutuasse a uma altura impossível de se ver qualquer vestígio de terra.

Senti uma lágrima descer quente. Senti saudades de quem eu achava que era.

Mas agora, já quase não importava que o jeans que eu vestia estivesse sujo e rasgado ou que meus cabelos fossem apenas um emaranhado sem sentido pendente da minha cabeça.

Não sei há quantos dias nos serviam pão e água periodicamente. Ou há quanto tempo usávamos um único sanitário onde jazia um antigo vaso imundo e mais nada. Éramos animais nojentos espalhados pelo chão. Éramos a mácula da sala branca. E não havia noite. Não havia nuvens. Nenhuma sombra. Apenas a luz. A luz branca e incansável que nos invadia cada poro.

E a certa altura pedi para morrer. Porque não havia nada. Nenhum propósito. Nenhum lugar para onde voltar. E éramos apenas bichos. Sem palavras, sem sorrisos. E por várias ocasiões pensei que eu era a única que ainda alimentava pensamentos humanos, palavras compostas por sílabas que desfilavam ora conexas, ora desvairadas pela minha mente.

E não entendia o propósito de estarmos ali. Ou quem eram os seres brancos e vazios que nos haviam capturado. Ou se eu havia morrido e estava em alguma espécie de purgatório ou inferno.

Meus pensamentos davam voltas e não me levavam a outro lugar que não fosse aquela sala branca e vazia de tudo o que eu lembrava. E eu já não lembrava de muita coisa. Agarrava-me a algumas imagens antigas, uma flor amarela no vaso da minha antiga sala, uma foto na estante, um número de telefone, o olhar da minha mãe.

De repente percebo que havia ainda em mim o amor. E isso me tornava humana e incapaz de desistir de viver. Incapaz de desacreditar que houvesse um vazio tão grande que não pudesse ser preenchido pela humanidade outra vez. E foi isso que me deu forças para pular. Para correr com toda força para a janela e saltar em direção á luz. E agora, durante a queda infinita o sorriso inevitável se prende em meus lábios. Para sempre.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

surreal


De um tempo para agora venho pensando em qual seria minha reação caso o reencontrasse. Confesso que já imaginei inúmeros esbarrões em corredores de supermercados, surpresas inacreditáveis atrás de prateleiras de livrarias...enfim, minha imaginação é das boas. E então, minha mente criava uma série de cenas bizarras, mas todas acabavam comigo me saindo muito bem, escolhendo as palavras certas e tal, aquele ar de superioridade e pouco caso dignos de oscars. Porém, na noite que me trouxe ao dia de hoje tive aquele sonho. Adoro contar sonhos. Adoro sonhar. Porque no sonho não sou nenhuma diretora louca que faz as coisas acontecerem como eu gostaria que fossem, ou até mesmo como deveriam ser. Os fatos e cenas se sucedem numa sequência perfeita, que ignora o tempo cronológico, psicológico e ignora tácitamente toda razão que poxa... não tem mesmo porque aparecer nos sonhos. Então sonhei que estava perdida. E isso a contece muito na realidade. Eu me perco. Me embrenho pelas ruas e cidades e estradas e de algum jeito consigo voltar pra casa, quase nunca pelo caminho óbvio. Nesse sonho eu estava andando a esmo num edifício de escritórios, que era um verdadeiro labirinto, repleto de salas, repartições, homens vestidos de calças pretas, camisa branca, gravata...todos iguais. Todos meio nerds. Todos com ar de inteligência e intolerância. E eu estava tímida, com medo de perguntar por atalhos, portas, saídas, retornos. Eu vestia uma roupa de noite, um vestido vermelho que adoraria ter de verdade, podia ser um Diòr, lindíssimo. E esse vestido me fazia tão estúpida naquele lugar! Meu Deus, se descubro esse figurinista! Bem, e era desses sonhos em que a gente vai se desesperando a medida que o maldito tempo do sonho passa, um tempo enorme, incontável, absurdo. E então, no auge de minha angústia abri uma porta qualquer e ele estava lá, sentado atrás de uma mesa ínfima usando óculos que nunca vi, gravata de mal gosto, camisa branca, prováveis calças pretas...e o ar de nerd e superioridade e tal...tudo lá. Meu Deus! Meu Deus! meu coração parou como se pensasse antes de cavalgar alucinadamente pelo meu peito, fato esse que me fez gaguejar todas as palavras que deveriam ter saído lindas da minha boca. Enfim. Maldito sonho. Fez do meu dia um dia todo carregado de lacunas nas quais eu havia deixado meu corpo e voado pelo espaço sideral em busca dos seus olhos azuis cravados em mim por detrás daqueles inverossímeis óculos. E concluo assim: que ridículo!